
Você já nasceu faz tempo, e sua casa há muito deixou de ser a barriga da mamãe. Mas ele continua lá. Intacto. Sim, você não o vê, mas sente, o tempo todo, a sua presença. Duvida? Te dou mais de uma prova:
1. Você namora justamente o cara que sua mãe detesta.
2. Escolhe um curso que os seus pais não valorizam.
3. Presta vestibular em outra cidade só para morar bem longe deles.
4. Anda com uma turma, segundo seus pais, de gente esquisita.
Você tenta, arduamente, cortar o tal cordão. Precisa se convencer, com todas as suas forças, que é um ser a parte, que sabe fazer suas próprias escolhas, que pensa com sua própria cabeça. Mentira. Ainda não é assim. Se pensasse, não se importaria em assumir, se fosse o caso, que quer ter exatamente a mesma profissão que o seu pai. Por influência, ou por genética. Ou que, no fundo, está com o tal garoto porque ele lhe dá uma sensação de aventura, de transgressão, de estar vivendo um filme, bem longe da sua realidade.
Também tem os que vão pelo caminho oposto: “vou trabalhar na empresa do meu pai”. E acaba só descobrindo, depois de muito tempo, de que aquilo não é nem nunca foi a dele. Quis facilitar e só dificultou. Lá na frente, ele abandona o curso no meio, e vai prestar vestibular tudo de novo. Ou a menina que casa com o cara almofadinha queridinho da família e na primeira sessão de terapia descobre, já com dois filhos, de que o cara não tem nada a ver com ela.
Uma amiga cuja mãe é uma renomada decoradora estava me contando que não pediu um palpite sequer para a mãe na hora de montar a própria casa, quando ela se casou, um ano atrás. O motivo? “Ah, ela iria querer mandar, fazer tudo do jeito dela”. E a gente pensa: mas nem uma sugestãozinha? Não, porque a gente sabe que, se por um lado a gente tem livre arbítrio para aceitar se quiser – afinal, a minha amiga tem 32 anos, e um bom salário, ou seja, já é adulta --, é bem capaz de acabar confusa do que quer por influência da mãe. Não tem palavra com mais peso do que a dela. E é assim para o resto da vida.
Outra amiga, logo que se formou, trocou sua cidade natal por São Paulo. Deixou para trás a possibilidade de ganhar bem melhor gerenciando os negócios do pai, um grande empresário. Disse que veio fazer o que gostava: ser designer em revista feminina. No mês passado, depois de oito anos de “independência”, adivinhe? Ela aceitou o convite do pai para trabalhar com ele. E sabe o que mais? Nunca se sentiu tão segura e independente como agora. “Não preciso mais provar para ele, nem para mim mesma, que sei me virar. Eu tenho certeza disso.” Ou seja: ela não passou oito anos fazendo o que gostava, mas se auto-afirmando.
Normal tudo isso. Vai passear por aí, se descobrir, mesmo que você descubra que é muito parecida com seus pais. No final, a gente está mesmo sempre “indo de volta pra casa”, como já cantava Cássia Eller.