
Quando era pequena, Joana pensava que tudo parava quando ela não estava por perto. Ao sair de qualquer recinto, as cenas congelavam e todas as pessoas viravam estátuas. Ela também tinha certeza de que sentimentos e relações eram sempre recíprocos: quem ela gostasse automaticamente gostaria dela, quem ela achasse bonito obviamente a acharia também. Nota-se que era uma garota feliz, sem qualquer tipo de nóia ou neurose.
Joana cresceu. Virou uma advogada bem sucedida, um tantinho workaholic e centralizadora, mas muito carismática, o que compensava qualquer atitude mais agressiva, o que não raro ocorria. Joana era direta e objetiva, não tinha nove horas. Assertiva, falava o que pensava, sem papas na língua. Magoava os mais sensíveis, a maioria das vezes sem perceber. Mas mesmo quando percebia, dizia a si própria “eles que procurem um analista”.
Joana era satisfeita consigo mesma, tinha uma boa autoestima e autoconfiança absoluta. O único problema é que ela não conseguia um namorado fixo. Todos os homens a achavam bonita demais, inteligente demais, bem sucedida demais, com autoconfiança demais. Era muita areia para o caminhãozinho de qualquer um.
Bem, essa foi a teoria que Joana criou para explicar a si mesma porque os homens só passavam, nunca permaneciam em sua vida. Acreditando nisso, seguia sua vida tranquila, afinal, ela jamais abriria mão de todos os seus talentos para agradar os homens. Sentia-se impotente com relação ao sentimento que provocava neles. "Eles é que arranjassem um analista."
Viagem para a Itália. Joana conhece um toureiro espanhol que, como ela, ali passava férias. Eles vivem uma tórrida aventura amorosa. Logo que se conhecem, conversam pouco. Se esbarram num bar e a atração é tão forte que em meia hora estão na cama do hotel. Dois dias depois, quando resolvem sair para comer alguma coisa, travam o que não se pode chamar de diálogo. Só o homem fala. E apenas de sua própria vida. Quando Joana arrisca dizer um simples "eu também”, dá tempo de falar a primeira vogal. O homem se basta. Não há espaço para ela ali. O toureiro é tão embevecido com suas próprias peripécias, que precisa apenas de um espelho, não de uma mulher. A não ser, é claro, para ter prazer sexual. Não existe brecha para interação. Joana se sente inútil. Joana se sente pequena. Joana se sente só. Joana se sente triste. Joana se sente magoada.
Joana se toca. Ela é mesmo o espelho do toureiro. Eles são idênticos! Ela se lembra de tudo o que já fez. E sofre. Finalmente, olha para os outros. Sim, eles existem. Mesmo quando ela não está presente.







