Julho 09, 2009

Amigas-oráculo


Menina adora interpretar o comportamento masculino. Fato. Ainda que ela nunca vá chegar a uma conclusão acertada, comprovada cientificamente, nem sequer à verdade, passa horas elocubrando os motivos conscientes e inconscientes que levaram o moço a fazer isso ou aquilo. O pior: meninas adoram pedir ajuda às amigas para interpretar o moço, ainda que tais amigas tenham muito menos ferramentas para avaliá-lo, afinal, conhecem bem menos o dito cujo do que a envolvida na situação. No entanto, atribuímos às amigas uma credibilidade incrível, as colocando no papel de oráculos, psicólogas. Quem sabe têm uma bola de cristal escondida em casa?

Quem nunca deu um copy and paste no msn do garoto e enviou pro msn da amiga para ela “avaliar” o conteúdo? Ou encaminhou um e-mail dele pra fulana analisar cada palavra? Pode assumir, é a coisa mais comum do mundo! Quer ver? Está em São Paulo agora a exposição de uma artista francesa chamada Sophie Calle, que levou o pé na bunda do escritor Grégoire Bouillier por e-mail, e enviou o conteúdo para 107 mulheres interpretarem e responderem o texto pra ela. O resultado virou a exposição (“Sophie Calle – Cuide de Você”) que passará também por Salvador. Calle e o ex estarão também na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) deste ano discutindo a relação.

Aposto que cada uma das 107 mulheres interpretou de maneira diferente o texto do dito cujo. Espero que a obra de arte sirva para mostrar que a interpretação de alguém tem mais a ver com quem interpretou do que com o autor do texto! Quem interpreta carrega consigo toda uma história de vida, traumas, e tende a associa-los com o que vê.

Enfim: por que cargas d´água você acredita mais na opinião da guria do que no seu próprio feeling? Ok, delícia ter um colinho, um conforto, mas não dependa dela para tomar suas decisões, please!

Aqui reproduzo o e-mail do ex da Sophie Calle, para cada uma de vocês enviarem comentários interpretando e a gente poder ver as diferentes nuances que cada uma pode dar a ele. O que você acha que o moço queria? O que ele sentia por ela? O que ele deixou de dizer no e-mail e ficou escondido só no coração e na cabeça dele? Façam suas apostas!

“Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail. Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer de viva voz. No entanto, vou fazê-lo por escrito.
Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a 'quarta'. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as 'outras', não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.

Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor — o mais benéfico que jamais tive — seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e 'generoso'. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as 'outras'. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.

Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.

Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.

Cuide-se."

Julho 01, 2009

Rótulos estão out


Classificações estão ficando mais demodés do que a palavra demodé (será que você já tinha ouvido falar nela? Ou o uso foi extinto na geração da minha mãe?). Enfim, está totalmente fora de moda ficar indagando se a pessoa é gay ou hetero, branca ou negra, gorda ou magra, inteligente ou burra, velha ou nova, feia ou bonita, namorado ou ficante. O que vale é o que se sente. Além do que, tudo é relativo e dinâmico. Você pode gostar de menino, mas estar a fim de beijar uma garota hoje. Pode ser considerada feia no Brasil e linda na Guatemala. Ou gorda para os padrões sul-americanos e magra para os padrões norte-americanos. Nada é, tudo está (não é à toa que em inglês o verbo “ser” é o mesmo que o “estar” – to be).

A moda não existe mais, quer dizer, a moda agora é justamente ser diferente. E veja só o saudoso Michael Jacksom – exemplo legítimo da ausência total de rótulos. Ele é de tudo um pouco. E o diploma de jornalismo, que caiu, afinal, você não precisa ter o carimbo de jornalista para ser um (segundo os ministros do STF!). Há muito não é necessário ter diploma de publicitária para exercer a atividade, muito menos de administradora para abrir um negócio. E mais essa agora: o Conselho Nacional de Educação aprovou o fim das disciplinas do Ensino Médio. A idéia é implantar grades curriculares inovadoras, interdisciplinares.

Dizem que essa compartimentalização de profissões e disciplinas é fruto de sociedades autoritárias, positivistas, que querem ter o controle de tudo, as coisas bem certinhas em seus devidos lugares, pré-definidos, segmentados, sem trocas de idéias nem mistura de funções, tudo muito organizado e hierarquizado, bem militar mesmo. Mas na democracia tudo isso perde o sentido, já que estamos muito mais abertos a aglutinações.

A princípio, parece uma bagunça, zona total, mas por que não encarar como algo complementar? Se desfazer dos rótulos é uma libertação, você para de se cobrar ser SÓ isso ou aquilo, dar satisfação para os outros do que gosta ou deixa de gostar. E se dá a oportunidade de ser sempre diferente, aberta a experimentações e em eterna descoberta.

Junho 25, 2009

Meninos deveriam ser mais cachorros


Calma! Antes de me agredir entenda: eu gostaria muito que os meninos aprendessem a amar como os cachorros. Eu não tenho um cãozinho. Mas conheço muita gente que tem, e sempre me intrigou o tamanho do amor que elas têm por esses bichos. De tanto pensar e observar, eu descobri porque eles são tão encantadores.

Cachorros têm a qualidade de não usar palavras para se expressar e não entender as palavras que a gente fala. Justamente por isso, captam a nossa essência. Eles fazem o que nós deveríamos fazer se quiséssemos realmente conhecer e compreender os outros: prestar atenção no tom, no olhar, nos gestos, e não se deter apenas nas letrinhas que saem da boca. Cães são assim: por não entender as palavras, não se deixam enganar por elas.

Por mais que eu fale brava com meu cãozinho e o trate mal, se ele perceber que estou carente, ele não vai sair de perto de mim. Ou seja: ele sabe do que eu preciso e realmente quero, mesmo que eu diga o contrário. Ele tampouco é orgulhoso, não fica magoado pelas frases impensadas que eu falo. Muito menos rancoroso. Se eu sou grossa e dou uma bronca porque ele fez xixi onde não deveria, por mais que ele reaja na hora, depois volta cheio de amor pra dar, como se eu nunca tivesse brigado com ele. Na sua vã filosofia, ele sabe que os momentos são passageiros, e aproveita cada um com intensidade. Não fica esmiuçando problemas que já aconteceram.

Basta eu tratá-lo com amor, que ele vai me achar bonita, ainda que eu esteja horrorosa. E nunca vai trocar de dona. Aliás, não sei porque chamam de “cachorros” homens sacanas.

O passado dele não pertence à você


Conheço um monte de garotas que têm verdadeiro tesão em futricar o passado dos seus namorados. Transformam a ex deles em rainhas da cocada preta, atribuindo a elas uma importância que talvez nunca tenham tido. Adoram fuçar no Orkut, checar scraps antigos, invadir o e-mail para ver as trocas de mensagens em datas que já caducaram, ou até mesmo ficar perguntando pra ele como era o lance com a dita cuja. Se você pensar bem no motivo pelo qual faz isso, pode chegar à conclusão que te excita. Isso mesmo. Afinal, é quase como um ménage à trois: você se sente no meio de outro casal ao ouvir a história dele com outra.

Mas existem outras razões para tanta curiosidade. Essas “namoradas-detetives” se auto-provocam o ciúme, é como se esse sentimento causasse a liberação de adrenalina e esquentasse a relação. No fundo, é como se você própria não fosse suficiente para atribuir qualidades ao moço, precisa comprovar que outra mulher que já fez parte da vida dele o amou pra ter certeza de que o cara vale a pena.

No entanto, em vez de ficar feliz ao comprovar que, sim, seu amor já viveu um outro amor, você fica sofrendo, pensando em como o cara era com a ex, ou como ele agia quando solteiro, paquerando outras meninas. E o pior: julga o moço, achando que descobriu coisas impensáveis sobre ele, que ele não é como você acreditava que fosse (só porque com outra ele não foi). Faz tudo isso como se conhecesse todo o contexto como ocorreu tudo no passado.

Querer saber de tudo o que já se passou na cabeça, no coração e na vida do cara é como querer fazer parte de alguma forma de todas as relações que o namorado já teve. É uma necessidade de ter o controle total do moço, de conhecer todas as versões dele. Impossível, minha filha, desista já!

Quem já assistiu o filme “Closer” talvez tenha aprendido que não é bom chegar perto demais nem de quem a gente ama. A vida é dinâmica, e a graça está em a gente poder ser diferente em cada pedaço dela, poder fazer vários capítulos. Você não faz parte do último capítulo da vida dele. Aceite. E se quer estar nas próximas cenas, é melhor fazer bem o seu papel hoje. Caso contrário, o passado dele vai te engolir! Viver de imaginação é não viver.

Junho 18, 2009

O peso das palavras


Palavras são imensuráveis porque abstratas, conceituais. Mas como pesam! Mesmo sem régua e sem balança conseguimos sentir o seu peso e sua medida. Apesar de saírem como ar, elas ficam, registradas nas mentes, nos corações. Uma vez proferidas permanecem pra sempre na memória de quem ouve. Já era.

Quando saem impensadas podem causar estragos tremendos, que o autor jamais poderá imaginar. Quem ouve as interpreta, as transforma, as sente a seu bel prazer. Ou desprazer. E aí o resultado pode ganhar proporções incalculáveis e irreversíveis. Quando não-planejadas, podem transformar o futuro. E quando planejadas também. Pois cada interlocutor as capta de uma maneira, em um momento específico, que o autor jamais poderá prever.

Palavaras são armas perigosas. Capazes de machucar e até matar. Mas também capazes de fazer refletir e modificar um ato que poderia vir a ser nocivo. Palavras não voltam. Quando saem da boca, ganham o mundo. Independentes, elas fazem o que querem por aí, muitas vezes causando um estrago tremendo.

Deleite-se com pensamentos, mas tenha cuidado com as palavras. Elas são a exposição, na maioria das vezes imprecisa, de sentimentos muito complexos para serem aprisionados em letras . Essas transformam os fatos, de maneira incalculável e imprevisível.

Por outro lado, o silêncio também pode ser nocivo. Em vez de resguardar, pode revelar o que o outro não quis dizer. Quem cala, apesar de mais discreto e misterioso, também expressa. Também pode machucar e desenrolar efeitos às vezes indesejados. Talvez da maneira mais covarde, pois não dá chance para o outro se manifestar. Quem cala pode ser muito vil. Mas também pode ter o ônus de jamais saber a resposta ao que deixou de perguntar.

Junho 17, 2009

A (difícil) arte de editar os outros


Eu sou uma editora nata. O meu maior defeito é o excesso de senso crítico e a franqueza. Apontar os defeitos, os erros, as falhas. Mas é um defeito essencial para o meu trabalho de editora/jornalista, o que, no caso, se transforma em qualidade. Aliás, é habilidade essencial querer formatar da melhor maneira possível o texto, o discurso, o comportamento, as pessoas.

Trabalho ingrato! Ninguém gosta de ter seus problemas apontados. Bem como ninguém tolera ter alguém tentando formatar e enquadrar da maneira mais perfeita. Claro, é, de certa forma, uma invasão de privacidade mexer no estilo dos outros. A primeira reação é apontar de volta o dedo, em vez de verificar como ficou bom o resultado da moldura. As pessoas teimam em manter os vícios de linguagem, de comportamento, de conduta.

É que pessoas não são telas estáticas. E as palavras são estreitas demais para defini-las. Elas são um caos dentro do universo, sempre em movimento, em eterna transformação. Querer emoldurá-las é como podar o que há de possível, pro bem ou pro mal. Fora que cada edição é subjetiva. O que eu acho melhor não necessariamente será o que outro editor (muito menos o próprio autor) achará. Mas aceitar a matéria bruta como se apresenta é, para uma editora, assinar um tratado de mediocridade. É nivelar por baixo e assassinar o pontencial que elas têm de sempre melhorar. À minha visão, é claro. Pois essa é a única que eu vejo.

Cada um é autor de sua própria vida, é fato. Alguns, bons redatores. Outros precisam de editores. Mas esses nunca enxergam sua própria necessidade. Autoeditar-se é um trabalho impossível. É sempre necessário que um terceiro veja, com outros olhos, o que o autor escreveu. Pra poder avaliar com distanciamento e enxugar, aparar as arestas. Mas como é difícil aceitar críticas e praticar o desapego para que um outro mexa no seu texto. Pois mexer no texto é, muitas vezes, descartar o contexto. Sim, muitas vezes ele é distorcido, deturpado. Ossos do ofício.

Junho 12, 2009

Um dia nada especial


12 de junho. Alguém inventou que esse é o dia dos namorados. E todo mundo acreditou. Então vamos ao shopping todos de uma só vez, feito uma manada, torcer pra ser atendido nas lojas disputando com mais 300 clientes a atenção de um vendedor. Mesmo que se esteja na pindaíba, vamos todos comprar por um preço mais alto do que o normal um presente. Daí, chega a noite, e vamos todos mais uma vez concorrer por uma mesa num restaurante. Depois apostar mais uma corrida pra ver quem pega lugar no motel.

Me poupe! Dia especial é aquele que pertence só a vocês dois, que faz parte da história que vocês criaram e foram os únicos protagonistas. Quer saber? Bom mesmo são os presentes fora de hora, dados não porque era dia de dar presente, mas porque ele achou aquilo a sua cara, ou porque estava te amando mais naquele dia. Ou até mesmo porque estava feliz por receber seu primeiro salário.

Afinal, tem coisa menos romântica do que dia dos namorados? Primeiro: dia de todo mundo não é dia de ninguém. É banalização. Q uando tudo está lotado de gente, perde-se o charme, o ar intimista, a cumplicidade. O bom é o imprevisível, a surpresa, o silêncio para que vocês ouçam a voz apenas um do outro sussurrada no ouvido. É aí que mora o romance.

E tudo que se faz por imposição é chato. As chances de o programa ser uma m*** são muito grandes. Pensa bem: e se no dia 12 de junho a namorada acordou com enxaqueca? Vai ter de dar um jeito de se recompor, afinal, tem de ser hoje o dia de vocês se amarem mais do que todos os outros? E se vocês brigaram ontem? Vão ter de dar um jeito de fazerem as pazes, mesmo que estejam ainda com ódio um do outro? E se justamente hoje o pneu do seu carro quebrou, o seu chefe te deu uma bronca e sua avó foi parar no hospital? Ah, esquece tudo e põe um sorriso e um olhar apaixonado no rosto, porque hoje é dia de estar feliz?

Pára com isso. Façam do dia de hoje um dia comum e feliz, como todos os outros deveriam ser.

Junho 10, 2009

Uma pitada de insegurança, por favor


Todas as vezes na vida que comecei a me sentir muito segura de mim, algo aconteceu que me fez cair na real, cair do cavalo, botar os pés no chão. Só para me lembrar que sou apenas mais uma nesse mundaréu, uma pessoa comum, com defeitos, fraquezas e idiotices. Para me lembrar que não sou a rainha da cocada preta, que tudo o que sei ainda é muito pouco. Se a princípio foi uma porrada na minha auto-estima, a longo prazo fez muito bem para a minha personalidade.

A maior especialidade de revistas femininas e livros de auto-ajuda é divulgar matérias com receitas para aumentar a sua auto-estima, pra fazer você se sentir poderosa e segura de si e, então, conquistar o mundo. Mas às vezes acho que tem mais gente por aí precisando de dicas para baixar um pouco a bola. O mundo tá cheio de gente arrogante, prepotente, que se acha melhor do que os outros, que só olha para o próprio umbigo e tem o ego maior do que o próprio corpo. No fundo, talvez seja tudo fruto de baixa auto-estima mesmo. Na tentativa de disfarçar suas inseguranças, eles se auto-afirmam levantando a voz e empinando o nariz, tratando os outros como serviçais, esbajando ar blasé. Mas o excesso de orgulho dessas pessoas jamais permitiria que elas lessem dicas para melhorar a sua auto-estima. Admitir-se inseguro, jamais.

Mais efeito teria esfregar na cara deles o que eles perdem embriagados com a sua prepotência. O quanto deixam de aprender, o quanto afastam pessoas legais, quantas portas eles fecham por deixar de refletir que aquele “estagiário com cara de moleque” vai um dia se tornar diretor de uma grande empresa, enquanto eles estarão inúteis velhos gagás. Por mais que a princípio os arrogantes causem medo e admiração, no decorrer do caminho, são tidos como bestas, chatos, patéticos.

Quem sabe do seu valor não precisa exibí-lo, esnobá-lo. Com a sua modesta espontaneidade, vira exemplo.